Uma semana de Apple Music. O que aprendemos?

Foram 7 dias inteiros com a Beats1 e o Apple Music, embora o serviço não traga nenhuma revolução para a mesa ele tem capacidade de mudar a maneira que muitas pessoas interagem com a música.

Na última terça, 30 de junho, entrava no ar o Apple Music, serviço de streaming de músicas criado pela Apple com base no Beats Music. Com um catálogo de cerca de 30 milhões de músicas, e toda a discografia da Taylor Swift, o serviço foi adotado como principal opção de streaming por pessoas do mundo todo e a sua estreia fez muito barulho nas redes sociais.

Ao longo dessa semana consegui passar bastante tempo usando o serviço, que no fim das contas não se diferencia muito de Spotify, TIDAL e outros concorrentes. Mas a Apple tem dois grandes trunfos em sua manga.

Integração

O primeiro e mais importante é como o serviço se integra bem com sua antiga biblioteca musical. Eu assino o Spotify já há algum tempo e nunca fui muito fã de deixar músicas offline no serviço. Afinal, eu já tenho uma grande biblioteca que cultivei com muito carinho ao longo de 7 anos usando a dobradinha iPod + iTunes, metadados, capas de álbum, playlists inteligentes. O Spotify sempre foi, pra mim, uma ferramenta para descobrir novas músicas que eu poderia então adicionar em minha coleção e um lugar onde encontrar playlists interessantes para as manhãs de sábado ou para cozinhar o almoço de domingo.

Disponibilizar muitas músicas offline no Spotify é uma decisão sem volta: vai se tornar bem complicado tentar manter duas bibliotecas distintas. Como vou saber se pra ouvir um artista preciso abrir o aplicativo nativo de música ou o Spotify? Inviável. O Apple Music corrige isso pra quem já está envolvido no ecossistema da empresa. É como se ao abrir as músicas que eu já tinha durante anos, agora eu também tenho a conveniência dos outros serviços de streaming e posso manter tudo em um lugar só de maneira transparente. Agora eu só preciso de um iPod Touch com 128 GB de capacidade, por favor.

Eu entendo que quem está no ecossistema Android já tem essa integração há algum tempo com o Google Play Música, mas minha experiência com o aplicativo foi bem decepcionante, não sei explicar muito bem o porquê. O aplicativo só não se encaixou muito bem na maneira que eu consumo e pesquiso música.

Base de usuários

Essa é simples. Enquanto todo iPhone em funcionamento no mundo vai ter o Apple Music disponível dentro de alguns meses, o Spotify é um app a parte. E não podemos subestimar o poder dessa diferença sutil, mas forte. Nem todo mundo toma decisões baseadas inteiramente na lógica ou após fazer diversos testes com as alternativas disponíveis. Muita gente usa o aplicativo de notas padrão da Apple, não importa o quão ruim ele seja, só porque ele já está lá.

Além disso, o serviço oferece três meses de teste gratuito. É tempo o suficiente para adicionar tantas músicas em sua biblioteca que você vai ter muita pena de vê-las ir embora. O preço é competitivo e, para grande parte das pessoas testando o Apple Music hoje, vai fazer muito sentido manter a assinatura. E várias outras vão manter sem lembrar que deveriam cancelar o período de testes ou por inércia mesmo.

Para aumentar essa base, também está prevista uma versão para Android para breve e, se depender do hype nas redes sociais, muita gente vai ao menos experimentar a novidade.

Nem tudo são flores

Mesmo com grandes trunfos na manga, o aplicativo do Apple Music ainda tem diversos problemas e está recebendo alguns reviews negativos na mídia especializada. Eu mesmo já sofri bastante com ele. Precisei de alguns minutos pesquisando para entender que não conseguia adicionar nenhuma música na minha biblioteca enquanto não ativasse o serviço iCloud Music Library, responsável por sincronizar os arquivos que estão na minha biblioteca do iTunes com as músicas que eu resolver pegar da nuvem a partir de agora.

Existem muitos menus e submenus para se navegar e a cada tela são abertas mais possibilidades e caminhos. Isso é um problema já esperado para um serviço que tenta abranger tantas possibilidades, mas também é esperado que a Apple tenha algumas cartas na manga para trabalhar com interfaces de um jeito um pouco melhor que o implementado no Music.

Aquilo ali é botão?
Aquilo ali é botão?

Também sofri para entender como ir para a página de um álbum ou artista quando estiver ouvindo uma música que gostar e quiser conhecer mais sobre o trabalho do cantor. Na tela há um botão com três pontos para mais ações além de pular, pausar ou voltar a faixa. Ao clicá-lo, aparecem diversas opções no menu de contexto.

O primeiro item desse menu, onde aparece a arte, o nome da música e do artista é um botão que te leva para o álbum. E eu demorei uns três dias pra descobrir isso.

Outro ponto confuso na interface são os diferentes sistemas de rating e avaliação disponíveis. O iTunes sempre funcionou com o conceito de estrelas, de uma a cinco. Agora, além das estrelas é possível dar um coração (um like?) para as músicas que cruzarem seu caminho. A ideia ficou tão confusa que eu já vi diversos artigos escritos só para explicar como utilizar as duas formas de rating.

Além das diferentes formas de avaliar músicas serem confusas, existem casos na rádio Beats1 quando você dá um like em uma música e um bug faz parecer que você deu like em todas as músicas que tocam depois dela.

Existem diversos outros problemas de interface que podem ser corrigidos numa próxima versão do iOS, que deve chegar em breve. Até lá, a empresa tem um excelente serviço de streaming, com ótima curadoria e biblioteca escondidos atrás de um app confuso e complicado.

Muitas das soluções para esses problemas devem vir dentro da janela de testes de três meses, para poder prender os usuários que embarcaram no começo, com as maiores instabilidades do app.

Qualidade de áudio

Um item importante ao se avaliar os produtos do gênero é a qualidade do áudio transmitido. Eu acredito que poucas pessoas são capazes de distinguir com certeza cada um dos serviços apenas ouvindo a qualidade do áudio, e menos pessoas ainda tem o equipamento necessário para tal feito.

O The Verge fez um teste cego comparando Apple Music, TIDAL e Spotify e os resultados mostram que cerca de 30% das pessoas nem perceberam a diferença de áudio, o que é uma péssima notícia para o TIDAL, serviço que tem a premissa de transmitir músicas em altíssima qualidade sobre o qual já conversamos antes.

O renascimento do rádio

Parada de sucessos do Beats1
Parada de sucessos do Beats1

Junto com o Music, chegou a Beats1, estação de rádio global disponível em 100 países e com conteúdo extremamente bem produzido e curado por grandes nomes da indústria musical. A primeira grande entrevista da rádio foi feita com o Eminem e diversos outros artistas já passaram por lá, inclusive há um programa semanal de uma hora com o Elton John.

Tentei ouvir a rádio em diferentes momentos ao longo da última semana e uma coisa eu posso dizer com certeza, ela é uma das melhores maneiras de descobrir bom conteúdo. Todas as músicas transmitidas vem com metadados que dizem para o aplicativo qual é o artista e o álbum e dali mesmo já é possível salvar a música offline ou adicioná-la a uma playlist pessoal.

Como o projeto ainda está bem no início, alguns usuários tem encontrado dificuldades para saber quando seus programas preferidos irão ao ar. Acho que ficamos tão acostumados a ouvir tudo que queremos no momento em que queremos, que já nem lembramos mais como é ligar pra pedir uma música no rádio e ficar esperando pra ver se ela toca.

Tirando o excesso de vezes que a rádio toca Freedom, novo single do Pharrell, a programação é quase sempre bem eclética. Minha única reclamação é que acho importante começar a pensar em outros nichos logo: precisamos de rádios country ou de rock, além da básica "hits do momento".

O mais interessante da Beats1 é imaginar como ela vai afetar a nossa maneira de consumir música daqui em diante. Ela provavelmente é a maior experiência de consumo simultâneo já feita. Existem algumas vinhetas de programação em outros idiomas além do inglês, mas a grande maioria do conteúdo distribuído é em inglês e destinado a um público alvo nos Estados Unidos e Europa.

Quantas pessoas podem estar ouvindo a rádio sem estar entendendo uma palavra do que está sendo dito? O que essas pessoas estão sentindo? E como as diferentes culturas regionais vão ser afetadas pela rádio? Em algum momento vamos ouvir alguma música em português ali? Acho que não. Nem sabemos se um dia teremos uma Beats1 Brasil ou algo do gênero.

Na visão de futuro da Apple, cada vez mais teremos acesso a um conteúdo incrivelmente curado por experts, mas um conteúdo mais "global" ou "pasteurizado" e que não reflete as particularidades de diferentes regiões do mundo. Por isso, não acho que esse modelo vá substituir nosso rádio FM tão cedo, mas estamos caminhando para lá.

Foto de Vinícius Ribeiro

Vinícius Ribeiro

Apaixonado por tecnologia e inovação, trabalha com desenvolvimento de sistemas e aplicativos há alguns anos.