Tidal: marola vendida como tsunami

Artistas se unem pela primeira vez na história para decidir como vender suas músicas e isso é sensacional! Ou quase.

Provavelmente, a esta altura do campeonato, você já deve ter ouvido falar pelo menos por alto do TIDAL, o novo serviço de streaming de músicas que foi lançado no último dia 30 e que foi comprado pela Project Panther, do rapper Jay-Z.

A apresentação de (re)lançamento do serviço (que já operava em alguns mercados como beta) reuniu artistas como o próprio Jay-Z, sua esposa Beyoncé, Kanye West, Alicia Keys, Usher, Nicki Minaj, Madonna, Arcade Fire, Daft Punk, Chris Martin e Calvin Harris. O evento foi bem esquisitão - mesmo pra quem está acostumado a ver eventos de lançamento de produtos da Samsung - e cheio de discursos inflamados sobre a importância da música em nossas vidas, o valor real que os artistas merecem receber e como o serviço planeja mudar o mercado da música de uma maneira global.

A visão da empresa, dita por Alicia Keys durante seu discurso no evento, é ser "a plataforma mais revolucionária de música e entretenimento" e "mudar o status-quo e reestabelecer o valor da música e criar um lugar que une artistas e fãs". Pareceu um pouco ambicioso demais? E é.

A plataforma mais revolucionária de música e entretenimento

Revolução, segundo a equipe do TIDAL.
Revolução, segundo a equipe do TIDAL.

Ao longo dos anos, nossa forma de consumir música foi evoluindo junto com a tecnologia e o surgimento de novas mídias, criando verdadeiras revoluções na maneira como nos relacionamos com música. A gente esquece fácil como era viver sem playlists, botões de repeat e shuffle. E essas coisas não existiam até alguns poucos 30 anos atrás. Imagine a revolução que foi a introdução dos dispositivos de gravação e reprodução de música no fim do século XIX. O Manual do Usuário tem um post excelente contando a breve história de como ouvimos música.

O TIDAL tem duas grandes frentes para tentar se estabelecer como um alternativa interessante para o consumidor final: músicas de alta qualidade e curadoria de conteúdo, com algum conteúdo exclusivo. O problema do serviço é que nenhuma dessas frentes é realmente revolucionária, como pensam seus criadores.

As músicas de alta qualidade, para a grande maioria das pessoas, acabam sendo mais uma perfumaria do que um ponto decisivo de venda. Primeiro que não é qualquer um que tem o equipamento capaz de reproduzir a diferença de qualidade final, nem o ouvido capaz de identificar um arquivo de 1411 kbps ao invés de um de 320 kbps. E o próprio TIDAL tem um teste onde você pode ver que no fim é quase tudo igual. Principalmente se você quiser ouvir Michel Teló. Eu fiz o teste e não tive nenhum motivo pra dizer que uma faixa era HiFi a não ser um chute esperançoso. Acertei 3 de 5. Não seria muito diferente se eu jogasse uma moeda. Seria interessante ter acesso a algum tipo de relatório de todos os resultados das pessoas fazendo esse teste, para saber se realmente as pessoas conseguem ouvir a diferença. E o pessoal do TIDAL tem acesso a esses dados.

Se você está pensando em utilizar o serviço on the go, também é importante lembrar a quantidade de dados que será consumida por esse formato em conexões 3G e 4G. Uma música em alta qualidade no TIDAL pode consumir algo em torno de 30 a 50 MB de dados, enquanto o equivalente em MP3 no Spotify fica em torno de 5 a 10 MB.

Sobre a curadoria e a criação de conteúdo exclusivo, isso não é muito diferente do que outros serviços do tipo vem oferecendo ao longo dos anos. O Spotify também tem seus álbuns e artistas exclusivos e curadores. A única diferença é quem decide o que vai ter destaque no serviço. No caso do TIDAL, os próprios músicos entram como parte dos fundadores do serviço, criadores e curadores de conteúdo. Durante o evento de lançamento, isso foi anunciado como um ótimo diferencial do TIDAL, já eu vejo com olhos de desconfiança. Quem decide que o álbum da Madonna merece destaque na página inicial? A própria Madonna e seus amigos, todos sócios do TIDAL.

Artistas costumam ser egocêntricos e achar que seu trabalho é algo maior do que realmente é. Não me leve a mal, eu sou apaixonado por música tenho um gosto bem diversificado para música, realmente acredito que ela é algo capaz de dar uma força ou significado a mais em nossas vidas e que ajuda a fortalecer e estabelecer nossos laços e memórias. Só sou um pouco cético sobre um determinado grupo de 10 a 20 artistas que, convencidos pelo Jay-Z, por alguns seguidores que dizem sim pra tudo no twitter e pela quantidade de dinheiro que tem em suas contas correntes ser capaz de revolucionar qualquer coisa só assinando um papel. Quantas vezes algum artista não aparece dizendo que seu novo trabalho é incrível e algo nunca antes visto e, no fim, é só mais do mesmo?

Madonna assinando a declaração dos fundadores do TIDAL.
Madonna assinando a declaração dos fundadores do TIDAL.

De resto, em sua essência, o TIDAL não tem nada que o diferencie bastante do Spotify, Rdio ou outros serviços do gênero. Também há suporte para exibição de vídeos e clipes em alta definição... O que seria realmente revolucionário em 2002 sem YouTube e Vevo e quando a MTV ainda era relevante para exibição de clipes.

Uma plataforma criada por músicos

Outra afirmação feita pelos envolvidos no projeto é o fato de que as plataformas de distribuição digital existentes hoje não pagam o merecido aos artistas. Mas o TIDAL não informa em momento nenhum como fará para reverter isso, além do fato de ser criado por uma espécie de aliança de músicos que parecem ter acordado um dia com a solução matemática mágica para o maior problema do mercado musical: as pessoas simplesmente não querem pagar por música. E esta não é uma afirmação apocalíptica onde tento prever a falência de Jay-Z e afins, mas é uma constatação do cotidiano de pessoas reais, aquelas que querem ligar o rádio, ouvir o que vai tocar no caminho pro trabalho e pronto.

Os que criam listas imensas de reprodução, criam catálogos enormes de álbuns e artistas categorizados por gênero, data de lançamento e etc são minoria. Dos 60 milhões de usuários do Spotify, só 15 milhões (menos de 30%) são usuários premium, isso em um serviço que cobra 10 dólares por mês pra ouvir toda a música que você conseguir e que está em 58 países. O TIDAL vai cobrar o dobro, sem oferecer um serviço de entrada gratuito e, por enquanto, está presente em 31 países (não, nada de Brasil). Todos os serviços de streaming juntos somam um total de 28 milhões de usuários pagantes (PDF).

Beyoncé durante a cerimônia de lançamento do TIDAL.
Beyoncé durante a cerimônia de lançamento do TIDAL.

Jay-Z chegou ao ponto de comparar em uma entrevista para a Billboard o fato de ouvir (e pagar por) música com pagar por água.

As pessoas não estão respeitando a música, e estão tirando o valor dela e tirando o valor do que a música realmente significa. As pessoas realmente acham que a música é de graça mas pagam 6 dólares por água. Você pode beber água de graça direto da torneira, e é uma água boa. Mas as pessoas estão ok pagando pela água. É como as pessoas pensam.

É muito fácil desqualificar todo o discurso de "pelos artistas" com argumentos do tipo "olha esse bando de músicos podres de ricos se juntando e reclamando que eu não estou dando dinheiro o suficiente pra eles". E esse é o tipo de argumento mais comum que tenho visto na internet quando se fala mal do TIDAL.

Mas acho que o problema com o serviço e com essa visão, que eu compartilho com ressalvas, é que o dinheiro simplesmente não vai aparecer do nada. E, se hoje o Spotify consegue pagar algo em torno de US$ 0,006 por stream, o TIDAL não deu muitas informações sobre como vai pagar muito mais que isso ou mesmo como vai conseguir repassar mais dinheiro para os artistas e tentar tirar a gravadora do jogo, que é quem acaba ficando com a maior parte do dinheiro no final das contas. Na pior das hipóteses se o TIDAL conseguir pagar o dobro, sem conseguir ganhar tração e sem público pagante, o dobro multiplicado por 0 execuções continua sendo 0.

Ao longo dos anos, os artistas sempre foram resistentes com novas formas de vender arte. Com a aparição dos primeiros meios de gravação de áudio diversas foram as afirmações de que seria o fim da música e dos artistas, que seriam desvalorizados e não poderiam mais se manter, já que todos estariam ouvindo suas gravações e o artista nada mais precisaria fazer. A história prova o contrário. A música nunca foi tão acessível para consumir e produzir. O mercado musical nunca foi tão democrático, com todos os benefícios e desafios que vem junto dessa afirmação, e grande parte dessa realidade é devido aos avanços tecnológicos e às novas mídias, queiram os músicos ou não.

Com certeza os artistas que estavam presentes na cerimônia de lançamento conseguiram ótimos acordos para garantir bons lucros na ferramenta e talvez até uma bela participação nos lucros da empresa, mas e quanto aos artistas que virão depois? Como é possível pagar a todos? Isso ainda ficou incerto. Ainda precisamos acompanhar a trajetória do TIDAL ao longo dos próximos meses para ver como tudo isso se encaixa e se os conteúdos exclusivos realmente serão o suficiente para tirar as pessoas dos serviços que já tem tração global. Beyoncé já lançou uma música exclusiva para o serviço, mas rapidamente ela já vazou e pode ser acessada por qualquer um na internet, como resolver essa questão? O TIDAL ainda não tem a resposta.

Afinal, para que o trabalho de muitos desses artistas tenha relevância é preciso que as pessoas queiram e, principalmente, possam compartilhar o conteúdo com amigos. Será que algumas das principais músicas dos charts da Billboard dos últimos anos conseguiriam se tornar tão populares sem as ferramentas de compartilhamento modernas? Nunca teremos a resposta, claro, mas a reflexão é importante para quem deseja entender a relação complicada entre quanto cobrar para criar experiências exclusivas e como fazer com que essas experiências atinjam o maior número possível de pessoas.

Há alguns meses, Taylor Swift se recusou a publicar seu novo álbum, 1989, no Spotify e ainda retirou todo seu catálogo de álbuns anteriores do serviço. A cantora afirmou que é preciso entrarmos com cuidado nessa nova era do mercado digital para não perdermos o valor da arte e da música, algo muito parecido com o discurso de Jay-Z e, ainda assim, 1989 não está disponível para os assinantes do TIDAL no mundo.

Foto de Vinícius Ribeiro

Vinícius Ribeiro

Apaixonado por tecnologia e inovação, trabalha com desenvolvimento de sistemas e aplicativos há alguns anos.