Projeto de Lei tenta impedir uso de celulares em sala de aula

Não adianta fugir, os celulares estão nas mãos de quase todos os jovens nos colégios e nós podemos tirar proveito disso.

Quando eu era criança, nos anos 90, a grande sensação nos colégios eram os álbuns de figurinha e o Tamagotchi. A gente ficava a manhã inteira esperando chegar a hora do recreio pra poder trocar as figurinhas repetidas ou poder comparar quais eram as "evoluções" mais recentes dos bichinhos virtuais. Pra poder usar o Tamagotchi - escondido - na sala tinha que tirar o som, que era bem alto e irritante.

Push notification em 1997.
Push notification em 1997.

Os amigos mais antenados, leia-se ricos, tinham incríveis Game Boys e podiam até jogar Pokémon, enquanto os menos afortunados ficavam no minigame comprado no camelô, que vinha com 1000 jogos. Uau! Ninguém reparava que os 1000 jogos eram todos repetidos e, no fundo, o que a gente queria mesmo era só o Pokémon.

De vez em quando eram umas revistas legais, sempre tinha alguém com uma Superinteressante ou Mundo Estranho com umas matérias divertidas que todos queriam ver. Elas iam passando de mão em mão. Depois surgiram os Tazos, uma hora eles começaram a voar. Deviam ser os drones da época. E assim a infância foi passando, sempre estudamos em meio a essa confusão de modas e brinquedos super legais que íamos tentando encaixar nos horários vagos no colégio e, muitas vezes, durante as aulas mesmo.

Mas este não é mais um texto saudosista que fala sobre "como era bom ser criança antes e hoje em dia essas crianças não sabem de nada!". Queria eu ser criança hoje.

O tempo passou, a tecnologia foi avançando e o Tazo de 2015 é o Whatsapp. No começo dessa semana, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados deu parecer de aprovação para o Projeto de Lei 104/2015, que tem por objetivo proibir a utilização de smartphones, tablets e outros dispositivos eletrônicos em sala de aula.

Entre as justificativas para a proposta está o fato de que os deputados que discutiram uma lei semelhante em 2009 acreditam que é preciso “preservar a essência do ambiente pedagógico", através da "proibição de uso em sala de aula a todos os equipamentos eletrônicos portáteis que desviam a atenção do aluno do trabalho didático desenvolvido pelo professor”. Será mesmo que os celulares são tão nocivos assim? Será que precisamos realmente que o Congresso Nacional esteja discutindo essa questão nesse momento?

A presença elevada de smartphones e outros dispositivos de conectividade em sala de aula vem incomodando alguns professores há algum tempo. Um estudo apresentado pela Cengage Learning afirma que 92% dos professores dizem que seus alunos trazem telefones para a aula. Além disso, 46% deles acredita que o uso dos aparelhos pelos alunos é uma distração para o professor e 72% dizem que é uma distração para o aluno.

Estudo da Cengage Learning sobre o uso de smartphones em sala de aula.
Estudo da Cengage Learning sobre o uso de smartphones em sala de aula.

Mas os resultados vão variar dependendo de quem responde. Apenas 23% dos alunos acham que o celular os distrai durante as aulas. Em um outro estudo relacionado, 55% dos alunos entrevistados afirmaram que usam o celular para verificar redes sociais ou mensagens instantâneas, como SMS ou Whatsapp.

Quem está certo? E, mais importante, será que a solução é simplesmente bloquear o uso ou é possível investir em novas maneiras de atrair a atenção dos alunos para a classe?

Uso pedagógico do celular em classe.
Uso pedagógico do celular em classe.

Ken Halla é um professor de História que abraçou o uso da tecnologia em suas aulas. Há mais de 5 anos ele trabalha para integrar o uso responsável dos telefones durante a aula e tem obtido resultados extremamente positivos. Para ele, o uso precisa ser acompanhado para que esteja de acordo com as necessidades do curso. Ele sabe que os alunos irão tentar burlar as regras e recomenda que os professores sejam vigilantes: "É mais difícil vermos o uso indesejado quando os telefones estão à mostra e o professor andando pela sala".

Ele também destaca o benefício do uso de apps que ajudam os alunos a se organizarem ou até mesmo a realizar as tarefas acadêmicas. A sugestão é o Remind101, que permite que lembretes sejam enviados diretamente para o telefone dos alunos ou pais. Segundo Ken, a ferramenta é capaz de diminuir o número de esquecidos com a lição de casa e é uma boa forma de manter os pais informados para participar na educação de seus filhos. Outra opção é o Poll Everywhere, que ajuda a realizar questionários e testes interativos com facilidade e resultados imediatos. É possível construir questionários que poderão ser avaliados rapidamente antes de uma prova, por exemplo, assim fica fácil perceber onde estão as dificuldades de aprendizado e revisar os pontos onde a turma precisa de mais atenção.

E o que nossos deputados diriam se soubessem como a música ajuda a manter a aula mais organizada? A dica do professor é permitir que os alunos usem fones de ouvido e ouçam música durante o desenvolvimento de tarefas individuais e de imersão. Segundo ele "O barulho na sala diminui e a quantidade de trabalho feito aumenta quando você os deixa ouvir suas músicas". Ao final do exercício basta pedir que todos coloquem os fones de ouvido de lado e voltem a ouvir e participar da aula. Quem diria?

O celular, assim como o livro ou a revista, é uma ferramenta e não podemos dizer que ele é o vilão da sala de aula. Se um aluno estiver lendo o livro de Física durante a aula de Biologia, é bem provável que ele não absorva muito do conteúdo trabalhado em sala, isso quer dizer que temos que banir os livros de Física das aulas? A ferramenta não é nociva por si só, ela necessita um uso direcionado e supervisionado.

Lá nos anos 90, não tínhamos ferramentas de interatividade tão poderosas como essas em nossos bolsos. Os Tazos não podiam fazer pesquisas no Google nem ser utilizados para responder questionários ligados aos assuntos abordados no programa do professor ou para avaliar a evolução do aprendizado. Nem por isso foi criada nenhuma lei proibindo Tazos em sala de aula, bastava que o bom senso (e uma boa chamada de atenção quando necessário) nos mantivesse focados no que era importante.

Então por que estamos tentando banir a tecnologia por si só? Acredito que a necessidade de criação de uma lei como essa está muito mais relacionada com a falta de atenção e orientação dada pelos pais e professores às crianças do que à evolução da comunicação no mundo. O bom e velho medo do desconhecido está ofuscando um problema anterior, que vem de casa. E uma lei não vai corrigir isso.

Foto de Vinícius Ribeiro

Vinícius Ribeiro

Apaixonado por tecnologia e inovação, trabalha com desenvolvimento de sistemas e aplicativos há alguns anos.