Pebble Time - Review

O underdog dos relógios inteligentes volta a cena, correndo por fora, enquanto tenta sobreviver em um mar tomado por gigantes.

Em 11 de Abril de 2012, antes da existência do Apple Watch, do Moto 360, Microsoft Band e Galaxy Gear, o mundo foi apresentado ao Pebble. De maneira tímida, custando 99 dólares para as primeiras 200 pessoas a apoiarem a campanha no Kickstarter e 115 dólares para quem chegasse depois, o projeto quebrou todos os recordes da plataforma de financiamento coletivo: os 100 mil dólares requisitados para tornar o relógio uma realidade foram alcançados em 2 horas e a campanha foi concluída com um total de mais de US$ 10 milhões arrecadados por quase 69 mil pessoas interessadas em adquirir o smartwatch.

Era a confirmação que o mercado precisava, o cenário de smartwatches ainda estava embrionário naquele momento e ainda iria evoluir bastante. O primeiro Pebble tinha uma aparência um pouco esquisita, podia parecer de brinquedo ou algo extremamente focado para um nicho de pessoas mais tech-savvy. Com o passar do tempo, foi anunciado o Pebble Steel, o mesmo relógio mas com uma aparência mais agradável - e um preço maior.

Depois de algum tempo sem novidades, a empresa voltou ao radar em 24 de Fevereiro desse ano, com o Pebble Time. Uma nova campanha no Kickstarter apresentava a nova iteração do aparelho e mais uma vez, recordes foram quebrados. Mais de 20 milhões de dólares foram arrecadados para o lançamento da nova versão.

Visão frontal do Pebble Time
Visão frontal do Pebble Time

As novidades incluíram uma nova tela e-ink colorida, uma melhor duração de bateria, microfone embutido e uma nova interface para o sistema operacional do relógio. Do início da campanha até a finalização e o envio do produto, a empresa veio compartilhando a evolução das diferentes etapas de produção, assim como fomentando o mercado de desenvolvimento de aplicativos para a plataforma. Qual foi o resultado?

A Tela

Pebble Time
Pebble Time

Com 64 cores no total, a nova tela é a mudança que mais chama atenção quando comparado com a versão anterior do relógio. Ela ainda conta com uma resolução de 144 por 168 pixels, nada estelar mas suficiente para o tipo de informação que você precisa consultar no seu pulso rapidamente. E, não, não existe a possibilidade de ficar rolando seu feed do instagram nele, como em outros concorrentes.

De maneira geral, as informações são bem legíveis em ambientes bem iluminados. Sob luz fraca ou no escuro, você irá precisar ativar a luz de fundo. Um rápido balanço do pulso ou apertar algum dos botões ilumina a tela instantaneamente.

Logo que recebi o Pebble Time, a versão do sistema rodando nele não permitia ajuste fino nas configurações da iluminação da tela, entretanto uma atualização liberada no último dia 22 passou a permitir que o usuário defina a intensidade e a duração da luz, o que foi muito bem vindo.

A tela também conta com uma moldura excessivamente grande. Além do bezel preto normal, foi adicionada uma moldura decorativa de aço inoxidável como uma "tampa" que se conecta com o corpo do dispositivo através de uma borda metálica. O visual final é agradável, mas talvez esse espaço poderia ser melhor aproveitado por uma tela um pouco maior.

Pebble Time em perspectiva
Pebble Time em perspectiva

A Construção

O principal material utilizado na construção do Time é plástico, o que acaba dando uma sensação de um produto mais barato quando comparado com os relógios de metal da concorrência. Entretanto, esse é o objetivo do design. O Time possui um irmão mais pomposo, o Time Steel, que ainda se encontra em fase de produção, e se destina a preencher o gap sentido por pessoas que demandam um produto com um visual mais "premium" em seu dia a dia.

A tela é feita de Gorilla Glass resistente a arranhões. Em uma semana de uso contínuo, ela continua impecável e muito bonita de se olhar.

Detalhe da pulseira do Pebble Time
Detalhe da pulseira do Pebble Time

A pulseira é feita de silicone e possui um toque suave e agradável à pele. Como a minha unidade é branca tenho tomado cuidado extra para fugir das inevitáveis manchas no corpo do relógio. O encaixe da pulseira é padrão e é possível comprar outras pulseiras em diversos locais, inclusive já existem lojas específicas na internet que comercializam pulseiras para smartwatches, incluindo o Pebble Time. A troca de pulseiras permite a criação de infinitos estilos de combinação, que podem ajudar a deixá-lo com uma cara especialmente sua.

O Pebble Time vem com uma gravação especial para backers do Kickstarter
O Pebble Time vem com uma gravação especial para backers do Kickstarter

Uma adição legal para os apoiadores da campanha no Kickstarter é uma gravação especial na traseira do dispositivo que identifica a "Kickstarter Edition". Para quem também apoiou a campanha do primeiro Pebble, a gravação identifica uma edição especial para campeões.

O relógio também é resistente a água em profundidades de até 30 metros, o que abre possibilidade para a criação de aplicativos que possam acompanhar nadadores em seus treinos e vários outros aplicativos que possam ser utilizados debaixo d'água.

Configurando

Logo ao ser ligado, o Pebble irá solicitar que seja pareado com o aplicativo oficial disponível para dispositivos iOS e Android - nada de Windows Phone em vista. A configuração é ligeiramente mais simples no Android, depois de pareado, você só precisa dar uma permissão para o relógio e está tudo pronto, ele já vai acompanhar suas notificações e possibilitar a instalação de novos aplicativos e watchfaces. No iOS é preciso ir dando permissões extras, uma para cada atividade que ele irá realizar, como acesso a notificações, calendários e gps.

Superado o processo inicial de configuração, o aplicativo irá te apresentar a lista de watchfaces e apps instalados no relógio e através dele você pode acessar a loja para obter novos.

Timeline, novo Sistema Operacional e os Aplicativos

Infelizmente, o Pebble ainda é um produto de nicho. Apesar de ter vendido mais de um milhão de unidades da primeira edição e da segunda campanha ter sido um sucesso de vendas, o aparelho ainda não tem um apelo com a grande massa e acaba causando curiosidade por ser confundido com o Apple Watch ou outros relógios mais presentes no imaginário popular.

Loja de aplicativos do Pebble Time
Loja de aplicativos do Pebble Time

Isso acaba se refletindo no mercado de aplicativos. Consegui encontrar algumas boas seleções de apps, como Morpheuz, ESPN e 8-A-Day, mas você ainda vai passar bastante tempo procurando por boas opções.

A loja apresenta algumas listas com curadoria de apps por tema, ou que fazem bom uso da nova tela colorida, mas mesmo assim você vai precisar navegar bastante e vai acabar encontrando algo que não tem tanta utilidade ou que é muito específico para algum mercado, como o aplicativo de controle do termostato Nest.

A Timeline é a nova interface apresentada pela empresa que tenta integrar as informações de seus apps em formato de linha do tempo. Com ela, é possível navegar para o passado ou o futuro utilizando os botões do relógio, o sistema irá juntar em uma linha suas atividades e informações das 36 últimas horas e das próximas 36 horas acima e abaixo da hora atual.

A interface Timeline alinha as informações do seu dia a dia em uma linha do tempo
A interface Timeline alinha as informações do seu dia a dia em uma linha do tempo

A ideia é boa, mas ainda depende de uma maior adoção por parte da comunidade de desenvolvedores. A empresa tem feito algumas ações de incentivo ao desenvolvimento de aplicativos integrados com a Timeline e possui uma lista de apps que utilizam o recurso promovidos em sua loja. O Swarm é um desses apps, mas não consegui fazer a integração dele funcionar, depois de muito tentar o app parece bem problemático ainda.

O uso mais comum da Timeline que tenho visto é a exibição de eventos de seus calendários pessoais e toda uma gama de apps que prometem colocar nela o calendário de jogos de futebol. Se você não pode perder nenhum jogo dessa temporada, está bem servido de opções.

O Pebble não possui tela sensível ao toque, então toda a navegação pelo sistema é feita através dos botões laterais. Um botão ao lado esquerdo para voltar, três botões ao lado direito para navegar pra cima, confirmar e navegar pra baixo. Ao mesmo tempo que essa decisão simplifica a interação, ela limita as possibilidades e fica a sensação de que tudo no relógio está um pouco mais distante do que deveria.

Com certeza a maior falha do Pebble Time é não ter acompanhado a concorrência nesse ponto. Em um Android Wear, é possível rolar direto para o app ou opção e tocar o lugar desejado. Com o Pebble, você precisa ir rolando de item em item, passando por todas as opções até chegar onde quer. Não me leve a mal, a navegação é rápida e fluida, mas ela fica um pouco prejudicada pela falta da interface de toque, que seria uma ótima companhia para a Timeline.

Bateria

Quase sempre um problema nos concorrentes, aqui é onde o Pebble se destaca. Por não utilizar tela de LED ou LCD, que demandam iluminação contínua e sugam sem dó a pequena bateria que cabe dentro de um dispositivo que deve ficar no seu pulso, ele deixa a concorrência comendo poeira: em meus testes consegui 5 dias de uso moderado. Ainda não são os 7 dias prometidos pela empresa no anúncio do produto, mas já está bem melhor que a média do mercado.

O carregador se encaixa em uma conexão proprietária magnética na parte de trás do relógio. Em meus testes, a carga é bem rápida, chegando a uma carga completa em cerca de 4 ou 5 horas. A conexão também irá funcionar para se conectar com futuras pulseiras inteligentes, que poderão adicionar novos recursos a experiência, como monitores de frequência cardíaca, GPS ou bateria extra.

Integração com o telefone

Aqui é um ponto onde os cenários se dividem. A integração do Pebble com o iOS é mínima. Você recebe notificações no pulso, mas só pode removê-las. Nenhuma outra ação está disponível, o que acaba não sendo muito produtivo, já que você vai ter que lidar de novo com aquela mesma notificação no futuro em outro dispositivo. Você também consegue controlar a música do iPhone direto no relógio, é possível dar play, pause, pular faixas e ajustar o volume. Eu percebi que essa integração funcionou muito bem com meu aplicativo de podcasts também, permitindo que eu avançasse 30 segundos pra frente ou retornasse no programa.

Já no Android, a integração é mais profunda, o Pebble se utiliza das APIs do Android Wear para permitir que você interaja com as notificações direto do seu pulso. Ao receber uma mensagem, por exemplo, é possível ignorar, enviar respostas rápidas, enviar um smile ou responder por voz. Entretanto, no meu teste, o sistema ativou o ditado em inglês do Android, por algum motivo, deixando a mensagem bem bagunçada. O controle de música funciona da mesma maneira que no iOS.

Em ambos os sistemas os seus eventos de calendário e a previsão do tempo irão aparecer na Timeline e você pode integrar alguns apps do telefone com o suas contrapartidas do Pebble, como o Swarm e o Endomondo.

Preço

O Pebble Time está disponível para compra nos EUA por US$ 199,00. O valor é alto, quando colocado junto a alternativas de outras empresas. Considerando a conversão do dólar, o frete e o imposto de importação ele passa facilmente dos R$ 1.000,00. Em uma busca rápida, consegui encontrar o Moto 360 a venda por cerca de R$ 800,00, o LG G Watch e o Samsung Galaxy Gear S podem ser encontrados por algo em torno dos R$ 1.500,00. O Apple Watch ainda não tem preço oficial no Brasil para comparação, mas deve ficar acima desses valores.

Pebble Time
Pebble Time

Se considerarmos que a versão Steel vai ser um pouco mais cara, mas vai ter as mesmas especificações do Time normal, não vejo o Pebble como uma compra que recomendaria a qualquer um. Se você quer estar por dentro das novidades do mercado de tecnologia, experimentar uma forma diferente de interagir com o relógio, ou quer ajudar uma empresa inovadora a se estabelecer nesse mercado, o Pebble é pra você.

De acordo com Eric Migicovsky, CEO da Pebble, ainda existe mercado suficiente para seu produto, mesmo com a forte competição de concorrentes muito maiores.

O que as pessoas realmente amam no Pebble é que ele é completamente customizável. Existe a app store com um gerador de watchfaces. Existem mais 4.000 watchfaces e aplicativos disponíveis para o Pebble agora. E o gerador de watchfaces, que é um site onde você pode enviar uma imagem [para customizar seu pebble] tem mais de 250 mil watchfaces.

Os relógios inteligentes nunca estiveram tão presentes na vida das pessoas e reduzir a competição para apenas duas empresas - Apple e Google - é bastante simplista. Com certeza o Pebble ainda tem muito a oferecer para esse mercado e as ideias estão sendo ouvidas. A empresa tem uma interface ativa de comunicação com a comunidade e está sempre atenta ao que é pedido.

O Pebble Time representa um passo, ainda que pequeno, na direção certa. A empresa vai precisar de gás para continuar nessa corrida, talvez alargando um pouco mais esses passos no futuro.

Foto de Vinícius Ribeiro

Vinícius Ribeiro

Apaixonado por tecnologia e inovação, trabalha com desenvolvimento de sistemas e aplicativos há alguns anos.